sexta-feira, 30 de outubro de 2026 Amazonas
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Treino em excesso pode desregular dopamina no cérebro, indica estudo com camundongos

Pesquisadores brasileiros observaram dopamina elevada no hipocampo em período de descanso. Resultados ainda não foram confirmados em humanos.

O excesso de exercício físico pode alterar a regulação química do cérebro e manter altos os níveis de dopamina mesmo quando o organismo deveria estar em repouso. É o que aponta um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista científica “Neuroscience”. A pesquisa foi feita com camundongos, e não há confirmação de que o mesmo ocorra em pessoas.

A dopamina é um neurotransmissor ligado à sensação de prazer e satisfação, e também essencial para manter o estado de alerta.

Como foi o experimento

Os cientistas dividiram os animais em dois grupos. Um fez um teste de esforço agudo, correndo em esteira até a exaustão. O outro seguiu um protocolo que simulava o treinamento excessivo enfrentado por atletas de alto rendimento com síndrome de overtraining.

Esse segundo grupo treinou por oito semanas, com aumento gradual das cargas. Na última semana, os animais faziam duas sessões por dia, com apenas quatro horas de recuperação entre elas.

Segundo o pesquisador Alisson Luiz da Rocha, primeiro autor do estudo e pós-doutorando na Universidade de Michigan (EUA), o desempenho físico melhorou após quatro semanas de treino adequado. Nas quatro semanas seguintes, com mais carga e menos recuperação, os animais perderam o ganho conquistado.

No grupo do esforço agudo, a dopamina subiu logo após a corrida. Já nos animais submetidos ao treino prolongado, os níveis de dopamina e da enzima tirosina hidroxilase, responsável por produzi-la, seguiam elevados 48 horas após o teste de desempenho. A alteração apareceu no hipocampo, região associada à memória, às emoções e à resposta ao estresse.

Os pesquisadores esperavam mudanças na serotonina, apontada há décadas como principal responsável pela fadiga central, mas ela praticamente não variou. Para o grupo, isso reforça a necessidade de investigar outros mecanismos, em vez de atribuir a fadiga a uma única substância.

Hipóteses e limites

Entre as hipóteses para o aumento da dopamina estão a adaptação do cérebro ao estresse repetido, a ação de substâncias inflamatórias liberadas pelo treino excessivo e o desajuste do relógio biológico. Os autores ressaltam que a dopamina não é prejudicial por si só: o problema estaria no desequilíbrio da regulação.

“A dopamina é um dos sinais que mantêm o cérebro acordado e alerta. Se ela está alta quando o organismo deveria descansar, uma consequência possível é o sono piorar”, afirmou Rocha. Segundo ele, isso pode formar um ciclo: a pessoa dorme mal, rende menos e acaba treinando ainda mais.

O estudo, porém, não avaliou sintomas como ansiedade e distúrbios do sono nos animais e não demonstrou que o mecanismo ocorra em humanos. Também usou apenas camundongos machos, mediu a dopamina no tecido cerebral (o funcionamento em tempo real pode ser diferente) e não define um intervalo ideal de descanso.

Os próximos passos incluem aprofundar os mecanismos nos animais e buscar sinais no sangue que ajudem a diagnosticar ou prevenir a síndrome. Em humanos, a ideia é acompanhar atletas com testes de desempenho, questionários de humor, monitoramento do sono e exames de sangue. Rocha lembra que o exercício é um dos melhores estímulos para o cérebro, mas que o excesso, sem recuperação, pode ser um problema.

Com informações de G1 – portal de Notícias.